sábado, 6 de fevereiro de 2016

Otelino, o ambulante


Ambulante é aquele vendedor que anda pelas ruas da cidade anunciando a sua mercadoria.

Quando a Governador Sampaio era a rua chique de Fortaleza, o ambulante Otelino alimentava um certo fascínio por Maria de Jesus, uma jovem senhora que tornara-se viúva antes do tempo. 

Sendo de boa e tradicional família fortalezense, De Jesus era bem guardada que só. Portanto, tornava-se bastante difícil qualquer marmanjo furar o cerco composto pelo seu mal-encarado pai e corpulentos irmãos. Falar com ela, só de longe e olhe lá!

Daí, cheio de gracejos, Otelino pegava o seu tabuleiro de bem talhada madeira, assentava no quengo protegido por uma encardida rodilha e, espalhando simpatia, saía para o exercício da sua rotineira labuta. Descia a ladeira da Visconde de Saboya, caía pela Praça dos Leões, virava a direita mais a frente, na Governador Sampaio, e abria o seu reclame pelas portas das faustosas casas. Quando chegava na da mirada viuvinha, ele lampejava os olhos e assim propagava:

- Ovo e uva boa! É da melhor qualidade! 

Aí, os guardiões da viúva surgiam nas janelas e Otelino, com um anêmico sorriso, levantava o pano que cobria a mercadoria no tabuleiro, continuava:

- Vai querer, freguês?!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Cocorote


Cocorote é uma expressão empregada no Ceará de uma batida na cabeça dada com a mão fechada, com o joelho do dedo médio, também conhecido como dedo do meio, pai-de-todos ou dedo maior. Portanto, o cocorote não é nada mais, nada menos, do que o velho Cascudo.

Agora, Cocorote também é uma região de Fortaleza, denominada pelos norte-americanos, na Segunda Guerra Mundial, que significava para os aviadores a Rota do Cocó, ou seja, Coco Route. 

Curiosamente, a Base Americana em Fortaleza era por eles chamada de Post Command, PC, que virou Base do Pici. A 2ª Base Americana em Fortaleza (atual Aeroporto Internacional Pinto Martins) era a chamada Base do Cocorote.

(Ilustração: Google)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Iconoclastia


No início do Colégio Integral, nós, alunos pioneiros, éramos uns verdadeiros anjos no bom conceito de comportamento.

Extremamente inovador e a frente do seu tempo, o Integral foi o primeiro colégio de Fortaleza a substituir a lousa e giz por telas, retroprojetores e pincel para quadros. Salas com ar condicionado, acionamento da porta por sistema elétrico, piso escalonado, iluminação direta e indireta, sistema sonoro etecetera e tal. Na parte didática, reunia os melhores professores da cidade, fazia uso de apostilas próprias, projeção de slides, filmes e, para anunciar o resultado das provas, um enorme placar eletrônico no pátio contíguo a sua quadra. No lado disciplinar, o aluno tinha liberdade nunca dantes vista em nenhum estabelecimento escolar das bandas de cá. Respeitava-se o direito de ir e vir, era permitido fumar em sala de aula e a cantina disponibilizava merendas naturais. Isso tudo em meados dos anos 1970.

Mas, a história que vou contar é acerca de uma reunião do grêmio dos alunos do Integral. Sob a presidência do Sandoval, participavam: Lolô, Cariré, Cezinha, Cristiano, Jean, Pintinho, The Jorge, The Quinderes e eu. Quem se lembrar de mais, por favor, me diga.

Bem, aconteceu o seguinte. Pintinho decidiu consertar um chaveiro, usando como martelo a réplica da estátua do Laçador, patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul, que havia na sala da diretoria do colégio. Eu, que no momento não tinha o que fazer, amarrei um cordão na estátua e toda vez que o Pintinho ia martelar, eu puxada e ele errava a batida. Uma vez, duas, três, quatro e, na quinta, rapidamente, Pintinho abusou da sua força e eu não puxei o cordão... Aí, aconteceu a desgraça: No duro golpe, a cabeça do Laçador apartou-se do seu corpo e rolou pelo chão!

Silêncio total. O medo pairou diante do sinistro. Mas, para reparar a situação, peguei a cabeça do Laçador e a coloquei bem aninhada entre o seu braço e a cintura. Achando ter resolvido o acidente, serenamente, fui para a quadra, assistir um jogo da Copa que estávamos realizando. 

Mas, eu não contava com a entrega de algum cabueta, que foi correndo avisar ao Wellington, um dos diretores do Integral, sobre o ocorrido. Ora, não tardou eu ser abordado pela a autoridade escolar, de forma ríspida e desaforada:

- Francisco Antonio, você decepou a minha estátua do Laçador! 
- Desculpa... 
- Saiba que aquela estátua é um troféu que recebi em uma solenidade muito especial! 
- Realmente, é uma peça muito bonita... 
- Seu iconoclasta!
- Peraí...
- Peraí, o que! [trincando os dentes]
- O que significa iconoclasta?
- É aquele que pratica a iconoclastia!
- E o que é iconoclastia?
- É a ação de destruir imagens!
- Ah, sim, ainda bem... 
- Ah, sim, e ainda bem por que?! 
- Pensei que o senhor tivesse perdido a educação...

Resultado: Fui suspenso por uma semana. Agora, o Pintinho, não sei porque, escapou.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dá um caldo


Dá um caldo é uma expressão que denota a pessoa que embora com uma idade avançada, por seus atributos ainda pode desempenhar muito bem suas prestezas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Da-rede-rasgada


Da-rede-rasgada é uma expressão popular nordestina que significa alguém que não leva nada à sério. Denota também uma moça mal comportada ou de uma pessoa leviana.

(Foto: Elusa Laprovitera)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

De corar Zé Tatá


Ouvindo agora uns hits, lembrei das velhas tertúlias, onde, o escuro da garagem era quebrado pelo lume violeta da luz negra que embranquecia os dentes, ressaltava o alvo do olho e acusava as caspas nos ombros dos dançantes!

Era tudo muito bom, mas, o que chateava era quando a turma esperava a noite inteira pela sessão de música lenta, aí, chegada a hora, aparecia um meninão grandão dos zói puxado e apartava os casais, para as meninas, à força, dançarem solto com ele alegres coreografias de corar Zé Tatá! 

Arre égua...

domingo, 31 de janeiro de 2016

Jonas e o patrão


Jonas, o velho e bom caseiro da Fazenda Brito, possuía a faculdade de ver aparelhos voadores não identificados e almas, nas estreladas noites de Irauçuba. Muito apegado e reconhecido, depois da partida do seu patrão Ozires, então, garrou a vê-lo muitas vezes.

Daí, sabendo das faculdades extra-sensoriais de Jonas, Luiz puxou conversa no alpendre da fazenda.

- Jonas, e o papai? 
- Doutor Luiz, todas as noites o Senador vem me ver. 
- É?
- É, sim senhor.
- E você conversa com ele?
- Não, ainda não. 
- E como é que você o vê?
- Doutor Luiz, ele é a noite toda pra lá e pra cá!
- Fazendo?
- Reparando as coisas, né?
- E você não tem medo dele, não?
- Não, agora eu pedi pra ele só passar por debaixo da minha rede!
- Por que?
- Porque ele tá com a mania de balançar a minha rede e eu não gosto disso, não! 

sábado, 30 de janeiro de 2016

Histórias da vovó Lissinha

"Respeitem o Papa!"


Durante a visita do Papa à Fortaleza, em 1980, por ocasião do X Congresso Eucarístico Nacional, um delegado da cidade de Sobral mandou recolher o arranhado disco do Luiz Gonzaga, que cantava a música Obrigado João Paulo II. Ocorre que o elepê já estava quase furando de tanto tocar na boate da Dozinha, com as animadíssimas donzelas da casa balançando o esqueleto com seus fieis fregueses.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lavar a burra


A expressão lavar a burra significa a ocorrência em que o indivíduo faz um bom negócio ou levar vantagem. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A ARTE, de Hélio Oiticica


“A ARTE é a amante mais cara que você pode arranjar. Com mesquinharia não se faz arte.” (Hélio Oiticica)

Velhaco


Ricardão deixou de andar pelo bar do Juvenal, ali, perto da linha do trem. O motivo arrazoado era a volta de um cheque pago na conta de duas geladíssimas cervejas e cinco fichas de sinuca. 

Se tinha uma coisa que Juvenal não perdoava em seu bar, era conta não paga. Portanto, o cheque do Ricardão foi devidamente pregado no quadro de honra dos velhacos do lugar. 

Como notícia ruim voa e se espalha ligeiro, Ricardão era informado o tempo todo sobre a existência do tal cheque no Juvenal. Azucrinado com tal situação, ele pediu ao sócio Bigode o obséquio de ir ao intolerante estabelecimento para efetuar o resgate daquela mal sucedida ordem de pagamento. 

Sem muito tempo, avexado, Bigode chegou no Juvenal, abancou-se no apoucado e cheio salão, chamou o garçom, pediu uma cerveja, duas, três, criou coragem e solicitou a conta. 

- E por favor, some à dolorosa o valor daquele cheque de tantos poucos reais. 
- Patrão, aqui, resgate de cheque, só com gaita viva, em espécie.
- Taqui, ouvindo a conversa... [Folheando as trocadas cédulas]

Grana pra lá, conta cá, o garçom foi ao quadro de honra, tirou o cheque e entregou ao Bigode. Daí, o amplo silêncio que assistia aquela cena só foi quebrado quando Bigode, já na calçada, indo embora, em coro foi saudado pela canalha: 

- Já vai, né, velhaco?! Pensava que a gente não tava vendo!

E a vaia comeu de esmola!

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Depressão pós-parto


Depois de ver sua mulher partir para nunca mais voltar, sentindo-se completamente abandonado, o agrimensor Agamenon pediu licença na repartição para tratamento de saúde, alegando "depressão pós-parto".

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Solitário macambúzio


Almoçando no Flórida Bar, acompanhei um boêmio ficar sozinho, aos poucos, na mesa ao lado.

Quando o último dos moicanos levantou-se, alegando ter que ir trabalhar, enrolando a língua, o solitário macambúzio falou:

- Você está sendo muito perverso, viu?

(Foto: Totonho Laprovitera)

domingo, 24 de janeiro de 2016

Flávia Wenceslau

A macumba da Dona Fátima


Eu morava em João Pessoa, na Paraíba, e estava mais magro do que nunca! Na balança, com o sabonete na mão, pesava uns cinquenta e poucos quilos, no máximo! E para agravar a situação, a minha vida era toda desregulada. Dormia pouco, me alimentava mal e farreava todo o santo dia. Estava em tempo de adoecer.

Dividindo a morada no Edifício Beira Mar com os amigos Toinho, Afonso, Paulo e Helder (o único mais ou menos organizado do grupo), tínhamos como empregada doméstica Dona Fátima, uma avantajada negra, bem alta, dos olhos acesos feito brasa, de sisuda expressão de humor e adepta fervorosa do culto sincrético da macumba.

Dona Fátima não dava trela a seu ninguém, pois vivia a mentira de dizer para seu violento esposo, um dos presidiários mais perigosos do Estado da Paraíba, que trabalhava na casa de cinco “moças” cearenses. Durante o tempo em que passou com a gente, algumas passagens tornaram-se inesquecíveis.

1. Flagrada em casa, vestida com um meu calção, ela justificou-se dizendo que estava fazendo um aborto e o tinha vestido pela comodidade do manejo de uma sonda que estava usando. Inquirida se não estava cometendo um crime, ela respondeu: “Ah, é? E qual dos patrõezinhos vai querer criar o bruguelinho?”

2. Chamada atenção pelo sumiço temporário da faca da cozinha, ela justificou-se: “Fui eu que levei, e daí?! Taqui de volta. Tava precisando para um despacho numa encruzilhada que eu fui fazer perto daqui de casa.” 

3. Prestando atenção à gente, quando combinávamos com as namoradas para sair à noite, comentou: “Ô bando de menino besta, se fossem comigo à Zona, aí, sim, vocês iam ver o que é mulher!” 

4. Comunicada da dispensa de seus serviços, em nosso lar, ela não se conformou. Depois de insistirmos que não mais precisaríamos de seus préstimos profissionais e que ela tinha que ir embora, ela não arredou o pé de suas convicções e sentenciou: “Vou é porra!”

Mas, precisada de dinheiro, foi que Dona Fátima resolveu armar uma para filar um troco. Vendo-me impressionado com a minha assustadora magreza, ela convenceu-me de ir ao terreiro de macumba, pois sentia que eu padecia do encosto de um espírito ruim. Relutei um pouco, mas acabei cedendo à ideia quando Toinho disse que cometeria a amiga cortesia de me levar em seu descolado Chevrolet Opala Cupê amarelo. 

Tudo combinado, partimos ao terreiro, porém, no meio do caminho, o carro deu prego. Dona Fátima comentou: “É o tal do espírito querendo impedir a nossa ida.” Toinho abriu o capô do automóvel e verificou que era apenas um pequeno problema na rebimboca da parafuseta. Efetuado o acerto, o motor pegou e seguimos viagem. Ao chegarmos ao nosso destino, já tinha um bocado de gente me esperando. E não perderam tempo! Foram logo me benzendo, me dando passos, me envolvendo... Aí, rebolaram um litro de álcool no meio do terreiro e tocaram fogo! A Mãe de Santo me abraçou e, estrebuchando, disse que ia me salvar das garras da terrível e malamanhada entidade espiritual que estava me secando. Dona Fátima perguntou o que ela poderia fazer pelo patrãozinho e ela disse que receitaria um tratamento adequado para tal mal que me acometia. Findo nossos assuntos, de volta pra casa, assuntamos: 

- Meu patrãozinho, tenha fé, o senhor vai ficar bom. 
- Bom de que, Dona Fátima?
- Vai se livrar desse espírito perverso que tá só lhe secando... 
- Que papo é esse, Dona Fátima?
- E o senhor acha que essa sua magreza vem de onde? 
- Do encosto?
- Dele mesmo! Olha, meu patrãozinho tem a cara de abestaiado, mas, tá é ficando esperto... 
- É?
- Destá! E agora é só receber as graças da minha mãezinha e começar logo esse tratamento... 
- Caridosa a sua mãezinha, né?
- Ôxe, é muito caridosa e não cobra nada pelo bem que faz! Mas, como meu patrãozinho também é muito caridoso, vai dar um dinheirinho pra ela continuar livrando as pessoas do mal, tá certo?
- Comequié?!

Desconversado o assunto de ordem pecuniária, chegamos em casa e a partir daí, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, sumiu a chave da porta principal do apartamento. Depois, à noite, o registro geral de energia desligava e tome apagão! Como se não bastasse, vultos cortavam o corredor, topavam na porta do quarto, até que um dia, tive o susto maior: ao acordar, pressentindo a presença de alguém me vigiando, a um palmo dos meus olhos, uma peruca de cabeleira acaju estava sendo escovada na minha cara! Tomei um susto lascado, dei um pulo da rede, a assombração meteu o pé na carreira, mas deu para eu identificar que era uma negra alma. 

Perguntei à Dona Fátima sobre tal marmota e ela negou a sua autoria, dizendo que eu estava era lelé da cuca. 

- Tudo bem, Dona Fátima, vou resolver esse problema é lá no Ceará, onde tenho laços estreitos de amizade com Mãe Júlia, uma santa mãe-de-santo que é amiga da minha família! 

Vim à Fortaleza e passei um mês de férias. Quando voltei à João Pessoa, curiosa que só, Dona Fátima foi logo perguntando como eu estava e o que eu tinha feito no Ceará. Contra-atacando, para me defender, me vali de um criativo plano da minha imaginação. 

- Dona Fátima, estou bem demais! 
- Que ótimo. 
- Mãe Júlia me abençoou e disse que nenhum espírito maligno afligia a minha vida. 
- Ah, foi? Eu sempre achei isso... 
- Agora, eu procurei um amigo que é mestre da quimbanda e ele me garantiu que o caldeirão irá ferver para quem estiver desejando ou fazendo mal contra a minha pessoa! E os ditos-cujos são do mundo dos vivos! 
- E o meu patrãozinho acredita nessas coisas, é?
- Vai ser pei-bufo! Ele já se valeu de Pombagira, Exu Caveira, Belzebu, Príncipe dos Demônios, Senhor das Moscas e da pestilência... E dos demônios mais poderosos do inferno, que só se curvam perante Lúcifer! 
- Ôxente, e lá tem quem não queira bem ao meu patrãozinho! 
- (Tá pedindo penico, né?) [Pensei]

Pois é, daí, as assombrações sumiram do mapa!

sábado, 23 de janeiro de 2016

Alma


Segundo o professor Carlinhos Analfabético, “o termo alma é proveniente do hebraico nephesh, que expressa vida ou criatura. Do latim animu, também significa ‘o que anima’. Na religião possui grande importância, pois é motivo de dar capacidade ao indivíduo para fazer e viver coisas e momentos complexos.”

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Na mira


Como diz Toim da Meruoca, "a embriaguez é o exercício da lucidez!"

(Foto: Totonho Laprovitera)